terça-feira, dezembro 19, 2006

Perfil

Estatura mediana. Olhos castanhos. Fios negros abaixo dos ombros e um ligeiro rosado artificial sobre a pele clara. Uma beleza comum, porém fascinante. Possuidora de mãos talentosas e de uma sensibilidade excitante. Encantava a todos com seus expressivos quadros de aquarela.
Há tempos vivendo sozinha e submersa no seu trabalho, aprendeu a sentir seu corpo e a passear pelo interior, fato este a atormentava, pois a remetia ao passado.
Hoje ela já consegue reinventar os acontecimentos de outrora e transformar o seu presente em arte. A aparente fragilidade do físico magro e indefeso esconde a vitalidade e os mistérios que existe por trás dessa jovem artista.
Passou anos vivendo intensamente cada minuto dos seus dias, mas por vezes era tomada pelas instabilidades humanas. Guardava em si uma tristeza profunda, uma busca incessante por uma felicidade irreal. De um ano para cá, começou a revelar seu lado vivo apenas nas telas, deixando para o real uma calmaria exacerbada.
No entanto, essa suposta calma era freqüentemente atropelada por seus pensamentos desejantes e instintivos. A jovem pintora era a personificação da contradição, da antítese. Entre o sim e o não, entre o dito e o não-dito, ela seguia seus dias escorregando e se agarrando no seu eu irrevelável.

(Perfil da personagem Luci de um conto não publicado)
Roberta Valentim

terça-feira, novembro 21, 2006

boa música, algumas lágrimas e muita alegria.

Pranto de Poeta
(Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito)
Gravada pelo Mestre Cartola

"Em Mangueira
Quando morre
Um poeta
Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira
É tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente

Hei de ter um alguém pra chorar por mim
Através de um pandeiro ou de um tamborim"

quarta-feira, novembro 08, 2006

Uma outra tentativa

Estou querendo te provar
Que as dores que causei
Delas também me alimentei
Estou querendo te levar
Para um lugar de jasmins
Onde possamos nos revelar
E quem sabe, nos perdoar
Nós dois, a mim.
Se hoje tu choras por nada sentir
Eu choro para me redimir
A tentativa do passado voltar
Para tudo mudar
O que parece em vão
Aos olhos dos que não estão
Para mim, meu amor
É acalento nos dias insanos
Se hoje tu choras por nada sentir
Eu choro para me redimir
Buscando o antigo lugar
Que se encontra distante de mim.

Roberta Valentim

quarta-feira, novembro 01, 2006

E se não deu certo, faça um samba.

Samba Triste
(Baden Powell e Billy Blanco)

"Samba triste
A gente faz assim
Eu aqui
Você longe de mim, de mim
Alguém se vai
Saudade vem e fica perto
Saudade resto de amor
De amor que não deu certo
Samba triste
Que antes eu não fiz
Só porque
Eu sempre fui feliz, feliz
Agora eu sei
Que toda a vez que o amor existe
Há sempre um samba triste, meu bem
Samba que vem de você, amor"

sexta-feira, outubro 20, 2006

volte!

Sinto falta da dor que aqui fez sua morada.
Parece que arrumou as malas e pegou a estrada.
Sem aviso prévio deixou meu peito sem remédio.
A dor de tantas queixas
Era o consolo e minha existência
Hoje não tenho mais dor
Nem o belo amor.
E o pior de tudo
A fonte das entrelinhas
Definitivamente, secou.

Roberta Valentim
"gosto de me ver chorar"

terça-feira, outubro 03, 2006

Notre Musique

Há muito tempo não assistia a um filme que me prendesse ao ponto de anotar algumas falas dos personagens. Sinceramente, acho que isso nunca me aconteceu. De fato, gostaria de ter transcrito muito mais.
Os personagens são riquíssimos e essencialmente autênticos, característica de Godard, que diz não distanciar por completo o ator do personagem. Fato evidenciado na sua participação no longa-metragem.
O filme é extraordinário e merece ser visto ora com olhos abertos, ora fechados.
Uma obra-prima, Nossa Música.

“Se nossa época alcançou uma interminável força de destruição é preciso fazer uma revolução que crie uma indeterminável força de criação, que fortaleça as lembranças, que delineie os sonhos, que materialize as imagens”.

“Uma jovem católica alemã em 1943 disse: O sonho do indivíduo é ser dois. O sonho do Estado é ser um só. Ela foi decapitada”. A cena não é mostrada no filme, mas foi imaginada.

“O mundo em que vivemos necessita desesperadamente, para subsistir da existência de pessoas pacíficas e de poetas ...”.

Numa conferência sobre texto e imagem Godard fala mostrando algumas imagens:

“Em 1948 os israelitas entram na água rumo à terra prometida.
Os palestinos entram na água rumo ao afogamento.
Campo e contracampo.
O povo judeu se torna ficção.
O povo palestino, documentário”.

“Os fatos falam sobre si. Infelizmente não por muito tempo, porque o campo do texto já havia coberto o campo da visão”.

Outro exemplo que o cineasta expõe para mostrar os elementos básicos da gramática cinematográfica:

Um sábio alemão diz que o castelo de Elsinore não tem nada de extraordinário (mostrando as imagens), então, um físico dinamarquês responde: Sim, mas basta dizer “o castelo de Hamlet” e ele se torna extraordinário.

Elsino: o real
Hamelt: o imaginário

Campo e contracampo

Imaginário: certeza
Real: incerteza


“A verdade tem duas faces”

quinta-feira, setembro 28, 2006

"Joãos" do bar

“Joãos” do bar

Sai de casa
E diz que volta já
Senta no bar da esquina
E pede logo um gole de pinga.

Fala para todos
Quem ouve, quem não ouve e quem não quer ouvir
Da dor que se instalou
E que dali não quer mais sair.

Anos de desilusão
Assola aquele pobre coração
Amores perdidos em balcões
Cachaça, consolo e causa.

E agora que a vida perdeu a graça
João do bar
Come e dorme pra beber
Bebe, pra dormir e comer.

Lágrima nos olhos já não mais se sabe
Se chora pela amada perdida
Ou se pelo gosto amargo da bebida.

Coitado do João do bar
Dia desses não terá, se quer,
O seu lugar.

Roberta Valentim

quarta-feira, setembro 27, 2006



Veneta
Edu Lobo/Chico Buarque - 2001
Para o musical Cambaio, de Adriana e João Falcão

"Como num conto de fada
Ou como alguém rolando a escada
Vou pra civilização
Cabeleira incendiada
No barranco, na boléia
Uma candeia em cada mão
Eu quero um amor de primavera
Procuro letreiro de néon
Pretendo zoar a noite inteira
Preciso encontrar um homem bom
Que me deixe louca a chorar pitangas no breu
Que me beije a boca na laje do arranha-céu
E se a vida tomar jeito
Vou andar no parapeito
Com vestido de lamê
Ou sentar na esquina da fome
Da guimba, do desdém
Da gangue da Praça da Sé
Eu quero um amor de primavera
Procuro letreiro de néon
Pretendo zoar a noite inteira
Preciso encontrar um homem bom
Que estenda um tapete vermelho e me beije a mão
Que me arranque a roupa no meio da multidão"

sexta-feira, setembro 22, 2006

o crescer

Essa carência que me trava as pernas
Essa dor que corrói meu ser
Minhas limitações cultivadas
Uma planta todo dia regada
Sinaliza o meu padecer
O meu corpo amargurado
Meus sonhos desfigurados
Meu sorriso invertido
Tudo isso construído
Nesse deserto escondido
Que é o bendito crescer.

Roberta Valentim

Se tem que mudar, mude. Se tem que seguir, subverta.

o proibido virou permitido.
o perveso virou héroi.
meu diário virou um blog.
minha vida um velho e repetido rock.

(comentário complementar ao texto, E tudo mudou, de Luís Fernando Veríssimo)

Roberta Valentim

quarta-feira, setembro 20, 2006

é melhor assim

GERÂNIO
(Nando Reis/Marisa Monte/Jennifer Gomes)

“Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente

Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

...

e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro mas prefere cinema

Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda”

quinta-feira, setembro 14, 2006

pétalas no jardim

Por que falar de dor
Se a dor não vai
Nem volta mais.
Por que falar de dor
Se a dor não dói
E tanto faz
De tanto procurar o que me traz amor e paz
Eu quase percebi que só você é de valer
Agora que perdi
O que fazer para sorrir
E nessa de querer
Eu vivo só
Sem sucumbir
Até eu encontrar
O que sou eu
Pra resumir
Mas são elas
As pétalas no jardim
Que dizem muito mais de mim.

Roberta Valentim
Quem é do Amor
(Sergio Sampaio)

quem é do amor não engana
ama mesmo as duras penas
por isso não são pequenas
as doces vezes do amor
quem é do amor é mais quente
viaja contra a corrente
tem sangue de aguardente
nas dices velas do amor
quem é do amor tem o nome
de raoni da floresta
ruschi do espírito santo
da medicina da selva
quem é do amor é mais simples
tem uma cara de nuvem
e não permite que sujem
o verde da sua relva
quem é do amor somos nós
consolo dos idiotas
chave de se abrir as portas
dupla que se satisfaz
que amor assim é pros vivos
pros rituais pros sentidos
não é para ser escrito
não é para os livros que se faz

quinta-feira, agosto 31, 2006

...feito tatuagem...

A mão da vida me tatuou por dentro.
A mão do homem por fora.


Roberta Valentim

segunda-feira, agosto 28, 2006

O cheiro da saudade acabará condensando o ar da minha estufa.

Roberta Valentim

sexta-feira, agosto 18, 2006

Cíclica

As lágrimas que até ontem caíam
Pediram a licença da partida.
Mas na hora da despedida,
Sem nenhuma cerimônia,
Colocaram meus ouvidos num canto
E sopraram num só instante:
A vida tem dessas coisas,
Chora e ri.
Oh, cena encantadora.

Roberta Valentim

terça-feira, agosto 15, 2006

Acolhimento

Jan Saudek, 1971.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Acedência

Mãos que passeiam em outros corpos.
A pela branca na língua tua
Já não é a minha.
Teus pensamentos mais secretos
Não tem o meu por perto.
Na antiga cama que deitei
Meu cheiro não mais convém.

Roberta Valentim

segunda-feira, agosto 07, 2006

Paulo Leminski

Estupor
(Paulo Leminski)

"esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer
esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir
esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir"

terça-feira, agosto 01, 2006

a morte de Dionísio

Meus pés estão cansados.
Sobraram os velhos calos
Das sapatilhas coloridas,
Que seguiam as velhas trilhas
Dos famosos carnavais.
Hoje não há Dionísio,
Apenas um choro contido
De tempos que não voltam mais.

Roberta Valentim