sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A Força Que Nunca Seca

"Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
O que faz e equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Pra água que é tão pouca"

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

"Eu sou tua e tu és meu, e nós é um"

“Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muito de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez e nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia...”

Trecho do livro Um Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres de Clarice Lispector
Fala de Ulisses para Lóri

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Tem mais samba...

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A poesia, a dançarina e o anjo.

Soneto de Martha (La flor ilimitada)
Vinicius de Moraes

"Teu rosto amada minha
É tão perfeito
Tem uma luz tão cálida e divina
Que é lindo vê-lo quando se ilumina
Como se um cílio ardesse no teu peito
É tão leve teu corpo de menina
Assim de amplos quadris e de busto estreito
Que dir-se-ia uma jovem dançarina
De pele branca e fina
De olhar direito
Deveria chamar-te claridade
Pelo modo espontâneo
Franco e aberto
Com que encheste de cor meu mundo escuro
E sem olhar, nem vida, nem idade.
Me deste em tempo certo
Os frutos verdes deste amor maduro. "

Presente de um anjo.
Obrigada, bonito.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Sem Aviso

"Anda
tira essa dor do peito, anda
despe essa roupa preta e manda
seu corpo deslembrar

Canta
vira dor pelo avesso
Canta
larga essa vida assim as tontas
Deixa esse desenganar

Calma
Dê o tempo ao tempo, calma
alma
Põe cada coisa em seu lugar
E o dia virá, algum dia virá
Sem aviso

então... "

segunda-feira, janeiro 16, 2006

É tempo de:

Secar as lágrimas.
Deixar o suor cair.
Abrir os armários.
Fechar as caixas.
Reler os e-mails.
Encher o coração.
Esperança.
Alegria.
Arrumar a casa.
Juntar dinheiro.
Ler Clarice.
Escutar Tom.
Eternizar Chico
Respeitar Cartola.
Sentir.
Ouvir.
Cantar.
Abraçar crianças.
Beijar os velhinhos.
Cuidar das irmãs.
Ama a mãe.
Perdoar o pai.
Brincar com a sobrinha.
Ficar perto dos verdadeiros amigos.
Ir para a farra com quem é de farra.
Dançar com que é de dança.
Sambar com quem gosta de samba.
Ficar em casa.
Filmes e vinhos.
Computador, Jurandir,
Marcuse, Foucalt, Giddens
Mais vinho.
Madrugadas.
Olheiras.
Entrega.
Título.
Carnaval.
Apelo.
Amor.
Eterno.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Quem achar ela.... me avisa.

Queria falar do que me aflige. Das dores do mundo. Dos corações partidos. Dos amores proibidos ou quiçá dos amores que não se vão. No entanto, nenhuma palavra doce ou amarga consegue brotar por entre esses meus pensamentos. Não consigo se quer, juntar numerais e incógnitas para tentar montar uma equação de segundo grau. Vivo pensando no culto, no corpo, na sociedade, e nada de sentar meus velhos ossos coberto de carne e excessos de Caruaru, numa cadeira para escrever. Tudo deveria ser tão fácil, assim como, sentar no bode dourado e pedir a “Cabeça Branca” uma cerveja, e ainda, escutando elogios desse adorado senhor com sotaque carioca. É...meu corpo, não o cultuado, quem sabe o cevado, reclamou. Pediu um descanso. “Pelo menos de uma semana”, gritou meu bom e cansado amigo. Cá estou de recesso etílico, juntando os livros e os cacos, a vontade e a coragem. Procurando entre minhas partes e particularidades a tão preciosa e bem quista, menina dos livros.

quarta-feira, novembro 09, 2005

O mestre mandou

Corra e olhe o céu
Cartola
Composição: Cartola e Dalmo Castelo

Linda te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só, ai!
O tempo que passa
Em dor maior, bem maior
Linda no que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olha o céu
Que o sol vem trazer bom dia
Ah, corra e olha o céu
Que o sol vem trazer bom dia

quarta-feira, outubro 19, 2005

Encontros e Desencontros

Palavras interessantes e inesperadas que perpassam toda nossa vida. Enquanto encontros se consagram matrimonialmente, outros se desfazem diante das intempéries da vida. Pensando sobres esses acontecimentos lembrei do filme que possui o mesmo título desse texto, digo o texto possui o mesmo título do filme, (Lost in Translation de Sofia Coppola). Enfim, lembrei do inesperado de se estar perdido, questionando e muitas vezes sem respostas. Lembrei que mesmo assim os personagens principais do filme continuaram seus caminhos, e se encontraram diante dos desencontros pessoais. Nesse mês os encontros e desencontros foram às palavras que não saíam da minha mente, da minha lembrança, simplesmente ficavam e ficavam me perseguindo. Pois encontrei velhos amigos, devo ter me afastado de alguns outros, conheci novas pessoas, mesmo conhecendo-as há tempos, só que com outros olhos. Encontrei – me e me desencontrei várias vezes esse ano, mas vemos assim seguirei o caminho. Desejo aos encontros da vida que estão se eternizando felicidade de carnaval, calmaria dos anjos e amor juvenil e sereno. E aos desencontros eu desejo novas construções.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Mais uma

A língua francesa sempre me atraiu por sua beleza, sensibilidade e sensualidade. Lembro que um amigo falou que eu parecia uma francesinha, por causa dos meus cabelos curtos e da minha cor "gasparzinho". Mas, antes de ter a "beleza francesa", eu gostaria de saber falar essa música que é a língua deles. Confesso que estou encantada com a voz dessa mulher, então, acho que posso abusar desse espaço aqui, para colocar mais uma tradução das suas músicas.
Essa por final, como diria meu pai, pega na veia.

La Question (tradução)

Françoise Hardy

Composição: Françoise Hardy

A questão
Eu não sei o que você pode ser
Eu não sei o que você espera
Procuro sempre te conhecer
E seu silêncio perturba meu silêncio
Eu não sei da onde vem a mentira
É de tua voz que se cala
Os mundos onde, contudo eu mergulho
São como um túnel que me assusta
De sua distância em relação à mim
Se perde sempre
E procurar te entender
É como correr depois do vento
Eu não sei por que eu fico
Em um mar onde eu me afogo
Eu não sei por que eu ficoem um ar que me sufoca
Você é o sangue da minha ferida
Você é o fogo da minha queimadura
Você é minha pergunta sem resposta
Meu grito mudo e meu silêncio...

terça-feira, outubro 04, 2005

L'amitié

Tradução da música L'amitié cantada pela francesa Françoise Hardy.

"Muitos de meus amigos vieram das nuvens,
com o sol e a chuva como simples bagagens.
Eles fizeram a estação das amizades sinceras,
a mais bonita das quatro estações da terra.
Eles têm esta doçura das mais bonitas paisagens,
e a fidelidade dos pássaros de passagem.
Nos seus corações, está gravada uma infinita ternura.
Mas, às vezes, nos seus olhos, desliza-se a tristeza.
Então, eles vêm para se aquecerem em casa e você, também, virá.
Você será capaz de partir novamente em direção às nuvens,
e de, outra vez, sorrir para outros rostos,
e distribuir sua ternura ao redor,
quando alguém quiser escondê-lo a tristeza.
Porém como não se sabe o que a vida pode nos dar,
talvez na minha volta eu já não seja mais ninguém.
Mas se me sobrar um amigo que, realmente, compreenda-me,
eu esqueceria ao mesmo tempo, as minhas lágrimas e os meus sofrimentos.
Então, talvez virei para casa
para aquecer meu coração com a tua madeira."

Essa música terminou de levar meus últimos suspiros e minhas lágrimas no filme As Invasões Bárbaras. O filme é extraordinário e a música simboliza tudo o que eu senti no final.

sábado, setembro 10, 2005

A música perfeita

Quando eu tiver meu filho, ele não se chamará Luca, mas essa música será sua cantiga de niná.

Luca
Herbert Vianna

Abre os olhos pra ver o mundo
Tudo é novo para os teus olhos novos
Dá pra cada coisa um nome
Um nome novo e um sentido teu próprio
Eu te abro as cortinas da manhã
Eu te levo pros braços da tua mãe, cedo
Por um instante eu esqueço do que sou
Por um instante eu não lembro de ter medo
Fala as tuas palavras de vogais
E sorri quando já está dormindo
Filho, pai, mãe, orvalho da manhã
Tudo é novo para os meus olhos velhos
Eu te abro as cortinas da manhã
Eu te levo pros braços da tua mãe, cedo
Por um instante eu esqueço do que sou
Por um instante eu não lembro de ter medo
Abre os olhos pra ver o mundo
Tudo é novo para os teus olhos novos
Filho, pai, mãe, orvalho da manhã
Tudo é novo para os meus olhos velhos.

terça-feira, agosto 23, 2005

Ela já antevia o mundo pós-moderno

"Toda nossa economia se tornou uma economia do desperdício
na qual todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas
quase tão rapidamente quanto surgem
a fim de que o processo não chegue
a um fim repentino e catastrófico"

Hannah Arendt

quarta-feira, agosto 10, 2005

A elite e o menino

A jovem elite se cerca da beleza industrial para viver seus dias de rainha. Circula entre bares da moda, shoppings centers, salões de beleza, academias de ginástica, boates, mas quando entra no seu “peugeot”, esquece o outro lado, a rua, os sinais, as pessoas que criam o cenário principal da sociedade. A jovem não olha e nem reconhece aquele “menino” como um semelhante, apenas se distancia da realidade, para não entrar em contato com esse outro. Esse distanciamento, esse alheamento gera um sentimento de que o outro não deve ser respeitado fisicamente e moralmente. Diversas vezes essa jovem elite, revoltada por ter sido privada de algo do seu mundo encantado, verbalizou esse sentimento. Outras vezes, demonstra em ações o seu “distanciamento”, sua não “igualdade humana” em relação aos sócios-economicamente desfavorecidos: - pensava que era apenas um mendigo! Lembram?

O modelo de vida da elite, suas normas de comportamentos, suas aspirações são objetos de desejo, o dito ideal, e todos, os “meninos”, a elite baixa, alta, pequena, grande, querem esse ideal. A elite desfila com seu credit card na mão, e o menino nem dinheiro para o pão tem. Enquanto a elite se nega a enxergar o que lhe cegam os olhos, os “meninos” também se negam a enxergar o direito de uma loira sarada falar ao seu celular enquanto caminha na praia de Boa Viagem*.

O abismo criado entre a elite e o menino aumenta o “bandidismo”, conseqüentemente, o medo da sociedade. A elite negava a presença dos “meninos”, hoje os “meninos” negam a “presença humana” da elite, são ou somos, apenas objetos de roubo, corpos para atrocidades e sujeitos para consumir o que eles tem para oferecer.

* relato da revolta de um garoto, de um centro de reabilitação para menores infratores, quanto foi questionado o motivo do roubo. “Aquele galera desfilando com o celular, onde ela pensa que tá”.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Ou não sei quem sou, ou não sei como escrevo

"A inclinação de sua letra mostra que você parece ser uma pessoa equilibrada, educada. Mas é um pouco “fria” com quem acaba de conhecer. A ligação de sua letra revela raciocínio lógico, dinamismo, método e uma tendência à rotinas. A direção de sua letra indica controle, constância e organização, especialmente nas tarefas cotidianas. A pressão que usa ao escrever sinaliza estabilidade e equilíbrio. As áreas valorizadas na sua escrita destacam imediatismo, preocupação com questões materiais e pouca motivação de crescimento interior. A forma de sua letra demonstra conservadorismo, formalidade e uma certa frieza em seus relacionamentos sociais. Tende a esconder sentimentos."

quarta-feira, julho 27, 2005

Combinações Perfeitas

Queijo Gorgonzola, azeite e azeitonas
Salada verde, frango com ervas e legumes
Elis Regina, Paulinho Moska e Seu Jorge
Vinho, pensamentos e uma boa noite de sono.

terça-feira, julho 26, 2005

Ética: a palavra da vez

Atualmente, se pudéssemos eleger uma palavra da moda, a ética estaria no Top 10 das passarelas. É falta de ética aqui, é falta de moral acolá. Mas o que é ética? Qual a diferença de ética, moral e moralidade? Por que só nos damos conta que ética existe quando o buraco fica mais embaixo?

O conceito de ética está arraigado aos pequenos atos do nosso dia-a-dia até às ações nacionais ou mundiais. Ética é a ciência que estuda a moral, ela não emite valor de julgamento, mas reflete sobre as situações reais, sempre vendo a questão da responsabilidade de cada sujeito. Moral é “sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre indivíduos”. Já a moralidade é colocar em prática tudo isso.

Sócrates dizia que o pressuposto básico da ética era o conhecimento, bastava saber o que era bondade para que se seja bom. Se fosse assim era bom demais. Sem querer desmerecer o Pai da Ética, mas levando em consideração os dias de hoje, e a concepção de que o homem não é puramente razão e consciência, não podemos seguir esse pensamento. Onde fica o sujeito do não dito, onde fica os desejos inconscientes nessa história toda?

Platão, discípulo de Sócrates, pensa diferente sobre a questão da ética. Dizia ser necessário voltar a uma sociedade mais simples, construir a cidade perfeita guiada pela ética. Para ele, riqueza e poder deveria se concentrar nas mãos dos poucos que detivessem o conhecimento, deveria limitar ao mínimo as propriedades e até “extinguir” as famílias, para que todos se sentissem irmãos, filhos do Estado. Pobre Platão..., não tem idéia de como suas teorias se tornaram utópicas, até seu próprio nome se tornou termo para designar o impossível.

Mas, como tudo tem que ter um filho do meio, Aristóteles pregava as moderações das paixões como caminho da felicidade. Ele dizia que: a Lei deve ser capaz de “compreender as limitações do ser humano, aproveitar-se de suas paixões e instintos, e produzir instituições que promovam o bem e reprimam o mal”.

Então, diferentemente de Platão, Aristóteles dizia ser preciso compreender o real para pensar em formas de interdição. Sendo assim, o real deve moldar a Lei, e não a Lei moldar o real (como propôs Platão), pois só assim seria possível o cumprimento das leis por todos.

quinta-feira, julho 21, 2005

Ultimamente tenho tido cada sonho.

Ontem sonhei com um monte de cachorro. Parecia que a carrocinha tinha recolhido todos os pit bulls da cidade para fazer sabão. Não babei na fronha, mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. Lembrei que havia comentado de um “movimento contra a violência aos cachorros”, só um parênteses para a explicação das aspas, pois o movimento me parecia apenas uma promoção televisa, de uma loira bonita que fingia chorar e das pessoas que fingiam estarem comovidas. Sim, mas, mesmo lembrando desse comentário feito a noite e dessa associação no sonho, não consegui interpretar o porque dos cachorros, das pessoas e do local onde se encontravam os pit bulls para virarem banha.

Lembrei do filme amores brutos, que falava de traições, desespero, cachorros e de brutalidade da vida. O filme passa a idéia de que também somos aquilo que perdemos, e no sonho isso se apresentou em alguns momentos. Não lembro ao certo de todos os acontecimento, mas a sensação repugnante do lugar não me sai da cabeça. Só não senti o cheiro do lugar, mas o frio, o asco tudo ficou na minha pele até agora.

Pensei em jogar no bicho, fazer uma fezinha, quem sabe não era minha grande chance de sair da dureza. Mas, infelizmente, não acredito em sonhos como premunições, e nem sei jogar no bicho. Então, resolvi ficar com minhas associações, com as imagens e com as interpretações desse sonho vermelho.

quarta-feira, julho 13, 2005

Salve a caninha

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"

Mário Quintana